A difícil relação entre problema e oportunidade

Era tarde da noite em um dia típico de inverno no Canadá, Rob McEwen, CEO da GoldCortp Inc., continuava à mesa em uma sala repleta de experientes geologistas. As notícias que ele trazia não eram nada agradáveis. Na verdade, eram um total desastre, e McEwen estava tendo dificuldade em conter sua frustração. A pequena empresa de mineração de ouro sediada em Toronto lutava contra greves, débitos crescentes e excedentes custos de produção, que os havia obrigado a encerrar algumas de suas operações de mineração.

A tensão estava aumentando. McEwen não tinha experiência prévia com a indústria de extração, muito menos com a mineração de ouro. Poucas pessoas na sala acreditavam que McEwen fosse a pessoa certa para resgatar a companhia. Mas McEwen não se abatia com as críticas. Virou-se para os geologistas e disse: “Nós vamos encontrar mais ouro nessa propriedade, e não vamos deixar essa sala até que tenhamos um plano para tanto.”

Em 1999, com o futuro ainda incerto, McEwen tirou um período para aprimoramente pessoal. Ele acabou em uma conferência no MIT para jovens presidentes aonde coincidentemente estava sendo apresentado o tema Linux. Sentado na sala de palestras, McEwen ouviu atentamente a história sobre como Linus Torvalds abriu o código fonte de seu projeto para o mundo, permitindo que milhares de programadores anonimos fizessem valiosas contribuições pessoais.

McEwen teve uma epifania e ajeitou-se em sua cadeira em contemplação. Se os funcionários da GoldCorp não conseguiam encontar ouro em  Red Lake, talvez outra pessoa consiga. E talvez a chave para essa conquista esteja em encontrar as pessoas certas da mesma maneira que Linus Torvalds abriu o código fonte do Linux ao mundo.

McEwen retornou para Toronto para apresentar sua idéia ao time de geologistas da GoldCorp; “Gostaria de pegar toda nossa informação geológica, todos os dados que temos coletados desde 1948, e coloca-los em um diretório público para dividi-los com o resto do mundo. Então perguntaremos ao mundo aonde podemos encontrar os próximos 6 milhões de onças de ouro.”

Compreensivelmente, o time de geologistas residente manteve-se um tanto quanto cético a respeito. A indústria de mineração tem em seus dados geológicos um ativo valioso, guardado a sete chaves, e deixados de lado os minerais propriamente ditos, a informação geológica é o mais valioso e cuidadosamente guardado recurso existente.

McEwen sabia que sua estratégia seria controvesa e arriscada. “Estávamos atacando uma suposição fundamental da indústria; não se pode simplesmente entregar dados proprietários. Isso é tão fundamental que nunca havia sido questionado.” Uma vez mais, McEwen  estava disposto investir em sua iniciativa. Em Março de 2000, o projeto “GoldCorp Challenge” foi lançado ofereçendo um total de US$575,000 em prêmios em dinheiro para os paricipantes que apresentassem os melhores métodos e estimativas para a mineração de ouro na mina de Red Lake.

Em semanas, submissões de todo o mundo inundaram os ecritórios da GoldCorp.
Conforme esperado, geologistas se envolveram, mas as propostas vieram das mais inesperadas fontes, incluindo estudantes de graduação, consultores, matemáticos e militares, todos em busca de uma parte do prêmio. “Tínhamos aplicado matemática, física avançada, inteligência sistêmica, computação gráfica e soluções orgânicas para problemas inorgânicos. Haviam capacidades nunca antes aplicadas na indústria.

Quando vi os gráficos no computador quase cai da minha cadeira.” Os participantes haviam identificado 110 possíveis locais na propriedade de Red Lake, 50% dos quais ainda não haviam sido identificados pela companhia. Mais de 80% dos novos locais renderam quatidades substanciais de ouro.
Desde que a competição foi lançada, impressionantes 80 milhões de onças de ouro foram encontradas.

McEwen estima que o processo colaborativo antecipou em 2 ou 3 anos a capacidade exploratória da empresa.

Texto extraído do livro Wikinomics (2006), de Don Tapscott. Tradução livre.

wikinomics

O texto acima é introdutório ao livro Wikinomics, e da contornos reais ao potencial ainda dormente da cultura colaborativa, a cultura Wiki. Problema e oportunidade são, na prática, o mesmo objeto observado por ângulos diferentes. Esteja pronto para virar a bússula ao contrário, ou mesmo jogá-la fora, para ter a oportunidade de pensar “fora-da-caixa” e encontrar novas soluções baseadas em novas perspectivas de atuação.

Repense tudo o que parece certo demais e não mudou ao longo dos últimos 10 anos ou mais. A difícil relação entre problema e oportunidade reside no fato de que nos prendemos a modelos que não foram pensados para resolver problemas específicos, modelos resistentes a mudança, tornando a evolução tão difícil e incerta quanto inevitável.

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